DÍPTICO | Marco Goecke / Marcos Morau
BLUSHING, de Marco Goecke, explora os momentos frágeis e involuntários em que a emoção irrompe à superfície do corpo. A linguagem de movimento característica de Marco Goecke molda um mundo onde a vulnerabilidade interior se torna visível através do impulso físico.
A obra revolve em torno da ideia do rubor como reflexo humano: uma súbita onda de cor que denuncia desejo, medo, vergonha ou alegria. Os intérpretes movem-se em padrões inquietos, como se estivessem presos entre o desejo de se esconder e a vontade de se revelar. Os seus corpos pulsam com uma energia intensamente contida, oscilando entre intimidade e agitação.
Através de movimentos fragmentados, texturas musicais inquietantes e um sentido de urgência nervosa, Blushing torna-se um retrato da exposição emocional: um espaço delicado onde tudo o que se sente por dentro é empurrado para fora, de forma incontrolável. É um estudo sobre a sensibilidade, a honestidade do corpo e a beleza que emerge quando nos permitimos ser vistos.
Em VALSE, Marcos Morau transforma a elegância familiar da valsa num ritual estranho e onírico onde o tempo parece dobrar-se sobre si próprio. A peça começa com a ilusão de uma ordem clássica — padrões circulares, figuras contidas, ecos da tradição do salão — mas esse mundo rapidamente se desfaz. Os bailarinos oscilam entre harmonia e distorção, como se a memória da valsa estivesse a ser reproduzida através de uma lente fraturada.
A teatralidade inconfundível de Morau carrega o palco com imagens surreais: corpos movem-se como um organismo colectivo e, de seguida, fragmentam-se em gestos isolados, suspensos entre a imobilidade e uma precisão frenética. A coreografia joga com a repetição e a interrupção, criando uma sensação de déjà-vu, como se os intérpretes estivessem presos num ciclo infinito de celebração que perdeu o seu significado original.
Valse torna-se uma meditação sobre a nostalgia, o ritual e a beleza agridoce dos ciclos que nunca se resolvem por completo. Convida o público a entrar num mundo onde a graça e a estranheza coexistem — uma valsa que dança na fronteira entre a memória e a transformação.
A estreia do programa terá lugar a 5 de fevereiro de 2026, no Teatro Municipal da Covilhã.
